Capítulo 12: Declaração
O vigésimo nonavo dia do contrato começa com Letícia em pé no centro do estúdio, a mesma postura de sempre. Mas o estúdio não é mais o estúdio de sempre. Não há 40 pessoas. Há 19. Os outros 21 se foram nas últimas três semanas, um por um, e o último que saiu não deixou recado. Só fechou a porta.
Letícia tem uma planilha na mão. Ela não está preocupada com o número de funcionários. Está preocupada com o lançamento, que é daqui a quatro dias. A planilha mostra o que precisa ser entregue e quem vai entregar. Ela passa o dedo por cada item como quem assinala uma lista de compras.
"Temos três dias para a declaração de noivado", ela diz. "A Sônia montou o roteiro. O vídeo é gravado hoje à tarde. O texto é publicado sexta-feira de manhã, e o lançamento é segunda."
Eu entendo. Ou pelo menos acho que entendo. Mas não entendo. A palavra "declaração" no contexto do contrato significa algo diferente do que significa no contexto humano. No contrato, é um vídeo. Um vídeo em que eu e Rodrigo dizemos, para a câmera, que estamos noivos. No contexto humano, é algo que as pessoas fazem sem roteiro. Que as pessoas fazem sem câmera. Algo que não precisa ser publicado.
"Eu não vou ler esse roteiro", eu digo.
Letícia me olha como quem olha para um aparelho que não está funcionando. "O que você quer dizer com 'não vai ler'?"
"Quero dizer que não vou ler. Não vou gravar. Não vou dizer nada que não seja o que eu estou pensando, agora, neste momento. E o que eu estou pensando, agora, é que não sei o que estou pensando."
Isso é verdade. Eu sei que sei. Mas sei que sei sem conseguir dizer o que sei é. É como a queda de energia. Eu sabia que o escuro era diferente do escuro que eu conhecia. Só não conseguia colocar em palavras. As palavras, nesse caso, são como o roteiro de Letícia. Elas são um produto.
"Tem que haver um roteiro", Letícia diz. "Sem roteiro, não há declaração. Sem declaração, o lançamento vira um escândalo. Sem escândalo, a marca quebra."
"E sem a marca, a gente quebra."
"Exato."
Bia entra no estúdio meia hora depois, carregando um notebook e uma expressão que não é expressão profissional. É uma expressão pessoal. Algo que ela guardou no peito e que agora está prestes a ser dito.
"Vou precisar falar com você", Bia diz.
"Você já está falando."
"Não. Sobre o vídeo. Eu não vou participar."
"Bia."
"Eu gravei o vídeo que a Letícia me mandou. O texto era o mesmo do roteiro de noivado. Eu gravei. Deu certo. Ficou perfeito." A pausa é de meio segundo. "Não consigo assistir."
"Não é sobre o que você consegue assistir. É sobre o que a empresa precisa."
"Bia, eu não vou gravar. A Letícia pode contratar alguém. Pode fazer o vídeo sem mim. Mas eu não vou gravar o que o Letícia montou."
A palavra "empresa" soa diferente quando vem de Bia. Quando Letícia diz, é sinônimo de contrato, de obrigação, de lógica. Quando Bia diz, é sinônimo de mentira. A palavra mudou de dono.
"Não vou gravar", Bia repete.
Dezessete pessoas. Não 19. Uma saiu.
O vídeo é gravado sem Bia. Letícia assume a câmera. Eu uso a roupa que a Sônia escolheu: uma blusa preta de algodão fino, sem logotipo, sem brilho. A Sônia escolheu a roupa para parecer que eu escolhi a roupa. É o tipo de escolha que Rodrigo faria. A Sônia está fazendo Rodrigo escolher minha roupa. A ironia é impecável.
Enquanto a luz de estúdio esquenta minha pele, eu penso no apartamento do vigésimo-primeiro andar. Na garrafa de água. No silêncio. Nos minutos que passaram antes da energia voltar. Aquilo foi real. A gravidade de tudo que aconteceu lá não tem relação com o que estou prestes a dizer.
"A câmera está pronta", Letícia diz.
A câmera está pronta. A lente é o único elemento que me separa de algo que não sei nomear. A lente é o elemento que eu sempre usei como arma e como escudo. Agora é só lente. Sem função, sem objetivo. Apenas o vidro que separa o eu real do eu filmado.
"Rodrigo?"
Ele está lá, sentado na outra ponta do sofá. Ele vestiu uma camisa que não é da Sônia, não é da Sônia. É uma camisa que ele escolheu. A Sônia escolheu a cor. Mas o corte, o tecido, o jeito que ele abotoa é próprio. O mesmo corte que ele sempre usa. É a roupa de quem não precisa se preocupar com roupa.
"Pronto", eu digo.
Letícia conta. Três, dois, um. O vermelho do "ON AIR" acende.
"Nós estamos noivos", eu digo.
As palavras são as do roteiro. As palavras que Letícia montou. Elas soam diferentes na minha boca do que soariam na boca de qualquer outra pessoa. Porque eu sei o que é mentira. E quando eu sei o que é mentira, eu falo de um jeito que a câmera não percebe. Mas minha garganta percebe.
"Nós decidimos anunciar isso porque achamos que o amor não precisa de explicação", eu continuo.
E a câmera continua. O vermelho. A lente. A performance que não é performance porque não tenho roteiro.
Depois da gravação, eu saio do estúdio sem falar com ninguém. Deixo Letícia conferindo a gravação. Deixo Sônia conferindo as imagens. Deixo as dezoito pessoas que restaram do estúdio continuarem seu trabalho.
Fora. Na rua. Do outro lado do estúdio. Eu respiro. Não sei para quê. A rua é uma rua qualquer em Vila Madalena. Carros. Pessoas. Uma barraca de açaí que ainda não fechou. O açaí não muda. Nem a rua. Nem a cidade.
Meu celular vibra. Uma mensagem. De Mariana.
"A fonte interna que me entregou os detalhes do noivado falso confirmou que é real. O vídeo de noivado será publicado. Eu tenho o material. O que você quer que eu faça?"
Ela me pergunta o que eu quero que ela faça. É a mesma pergunta que eu fiz a mim mesma no vigésimo primeiro dia do contrato. O que fazer quando a verdade está disponível mas publicar é diferente de publicar. A diferença é que eu posso escolher. Mariana também pode.
Ela esperou até agora para me mandar a mensagem. Isso significa que ela já tomou uma decisão e quer que eu confirme. Ou que ela quer que eu diga algo que ela não tem coragem de dizer sozinha.
Eu não respondo. Deixo a mensagem lida. Fecho o celular. Encolho os ombros. Continuo andando.
A noite. O apartamento. A mesa. O caderno de rascunhos. A tela do computador com o texto que eu escrevi e não publiquei. As mil e seisenta palavras sobre o silêncio e o apartamento e a queda de energia. Eu as vejo. As palavras ainda estão lá. O rascunho que eu não publiquei.
Não publiquei. Não publiquei. Não publiquei.
Agora, diante do texto de Mariana, a escolha muda de forma. Publicar o vídeo de Mariana significava confirmar que eu menti. Confirmar que o noivado era falso. Confirmar que minha vida inteira foi construída sobre uma mentira. Mas não publicar. Não publicar é proteger. Proteger não é honestidade. É o mesmo mecanismo que me impediu de publicar as mil e seisenta palavras.
Mariana, em algum lugar, está fazendo a mesma escolha. Ou já fez.
O celular vibra de novo. Outra mensagem. Desta vez, é de Hugo Vane. O nome dele aparece na tela como uma sentença.
"Aguardo ver até onde você vai."
A frase é curta. E é o bastante. Ele não está perguntando. Ele está declarando. Ele está na expectativa dele. Ele está esperando eu fazer a escolha que sei que não vou fazer. Ou que talvez vá fazer.
A espera de Hugo. A espera de Mariana. A espera de Letícia. A espera de todos que estão me observando como um rato de laboratório que precisa escolher entre duas alavancas. Uma alavanca destrói tudo. A outra alavanca destrói tudo. A única diferença é que em uma das alavancas, o nome é o meu. Na outra, é o dele.
O apartamento escuro. A garrafa de água vazia. O silêncio que não é silêncio. Tudo isso ainda está lá. No apartamento que não é mais de Rodrigo. No apartamento que foi.
A queda de energia não foi um acidente. Foi um convite. E eu aceitei. Mas o contrato ainda não acabou. Faltam dois dias. E eu ainda tenho que decidir o que vou dizer na câmera.
Não. Eu já decidi. A decisão já foi tomada. Só não sei ainda se a decisão é de mim ou de outra pessoa. De alguém que me vê de fora, de algo que não tem nome, ou da mesma pessoa que não publica o texto de mil e seisenta palavras.
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